No quarto, copo de uísque seco sem gelo, me peguei ao som de um blues de doer o coração - como nos velhos tempos - envolto àqueles acordes tristes como em filmes preto e branco. Já não restavam resquícios do sol poente, era um daquele começo de noite e final de tarde leve que o céu estava em com um cinza gélido, coalhado de nuvens espessas e sobrecarregadas. Não tem nada para comer, desculpe, pensei que fosse preferir um vinho ou quem sabe me acompanhar no uísque, não costumo jantar ou lanchar, pois ando perdendo fácil a fome, fumando muito, deves ter reparado no meu rosto escaveirado e nos dentes amarelados quando me escapa um ou dois sorrisos. Se preferir, podemos sair para jantar, a casa está um tanto anarquizada para lhe receber, a janela fica à esquerda no corredor, aqui é alto o suficiente para um vôo tranqüilo, olhando dali eu consigo criar mil mundos, mas você já chegou, então vamos. Pode passar aqui sempre que quiser, costumo passar os dias sozinho e às vezes é bom conversar um pouco, não acha? Só procure não me dar muito papo se não conseguir acompanhar, tenho uma mania chata e irritante que depois de alguns goles de bebida fico ainda mais falante, deve ser carência, não sei, mas vamos não me interprete mal, apenas carência de uma conversa saudável e descontraída, uma companhia não tão enjoativa. E quando a noite estiver em sua cabeça e tudo começar a rodar […] Serei seu espelho, meio bêbado, meio louco, meio rouco. Um brinde à nossa geração de degenerados! E ah, o teu casaco. Já ia esquecendo o casaco.